Hoje o dia começou com um pequeno-almoço as oito da manhã, partilhado com um casal inglês e dois filhos, que estão de partida. Lahoussine diz-nos que vivem em Málaga e que andam a passear por Marrocos. Depois do pequeno-almoço preparamo-nos para sair e Lahoussine vem ao nosso encontro com um farnel para o almoço, composto por atum, salada e pão.
Subimos por uma estrada acidentada até uma aldeia a mil e oitocentos metros de altitude. O Dacia Duster portou-se às mil maravilhas no caminho mais acidentado do percurso. As aldeias no cimo têm várias construções em tom de terra acastanhada, taipa, mas também aqui o cimento vai aparecendo e a degradação da construção tradicional avança a passos largos. Percorremos campos com homens e mulheres a trabalhar à mão, alguns com burros a ajudar, é o tempo da sementeira. A rega tradicional com água trazida em levadas para os campos impera; há água a correr nos cursos de água e, nos cumes mais elevados, avistam-se as primeiras neves, o inverno não tarda a chegar. Descemos em seguida para o vale abaixo, onde corre o oeud que recolhe a água da das montanhas em redor e deixamos o carro à sombra de uma das várias kasbah do caminho.
Percorremos a pé algumas aldeias sem nome, uma das quais tinha um impressionante complexo de kasbah. À sombra de uma delas comemos o farnel preparado por Lahoussine, enquanto os aldeões passavam por nos a caminho dos seus afazeres. O tempo esteve bom, a temperatura amena, pouco abaixo dos vinte graus, mas o sol estava radioso. Ao longe, a chamada para a oração nas mesquitas em redor interrompia as espaço o silêncio do vale. Aqui não se canta, nem se grita. No curso de água do oeud, na parte sul, as mulheres lavavam roupa na água fria, olhando-nos de lado, ou ignorando a nossa presença.
Ao almoço o Miguel desenhou a fachada de uma kasbah em seguida fomos a Telouet visitar a kasbah com o mesmo nome. Telouet é uma aldeia com cerca de quinhentos habitantes, mas é a sede da comarca local. A kasbah vizinha foi imponente em tempo, mas atualmente está bastante degradada e tememos pela sua sobrevivência. Neste caso haverá pouca vontade de a recuperar do lado das instâncias oficiais pois foi fundada por Thami el-Glaui, um opositor da chegada ao poder da atual dinastia que governa o país.
No regresso avistámos umas salinas já desativadas, que visitámos, já perto da entrada de Tigmi, onde o dia terminava. Com a última luz do dia o Miguel foi visitar os arredores da nossa kasbah, junto à qual existia um antigo bairro judeu (mellah). Mais acima existe o cemitério judeu, vizinho do muçulmano, na elevação de uma colina fora da aldeia. Aqui terão convivido pacificamente as duas comunidades até à partida da comunidade judaica após a fundação do Estado de Israel. Eu recolhi ao quarto para responder a e-mails e dar atenção ao escritório, o dever chamava. Ao final do dia jantamos na kasbah, hoje Lahoussine preparou-nos uma sopa de bulgur com leite e manteiga, seguida de lentilhas e beringela salteadas, que estavam uma delicia. Em seguida, uma tagine berbere com carne de vitela e, no final, clementinas e doce. Lahoussine conta-nos um pouco da sua história de vida - tem uma boa cultura geral e fala um bom francês - e conta-nos algumas histórias da terra. Nem sempre aqui morou, trabalhou em outros locais, um dos quais na Líbia e por fim assentou arraiais na aldeia. A kasbah é dos anos 20 do século passado, foi herdade de seu pai, estando dividida ao meio, pertencendo a outra metade ao seu irmão. Uma kasbah vizinha, do séc. XVIII, em muito mau estado, pertence a um primo seu que já mandou derrubar as torres nos cantos, que ameaçavam ruína. Amanhã o Miguel fará o levantamento da sua planta.
Cerca das nove e meia da noite regressamos ao quarto. Amanhã é dia de pensar no regresso a Marraquexe, a primeira e última cidade da viagem, para perfazer o círculo que foi esta viagem. Ou não fosse a realidade circular.
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| Kasbah de Telouet |
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| Kasbah, perto de Telouet |
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| Salinas, Telouet |
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| Salinas, Telouet |
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| Canais para irrigação, perto de Telouet |
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| Kasbah de Telouet |
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| Pedras de sal |