Dia 5: Foum Zguid - Kasbah Tigmi N'Oufella

Hoje o despertar foi às sete da manhã, porque combinámos com Ottman, o encarregado da Riad Hiba, situada nos arredores de Foum Zguid, o pequeno-almoço a essa hora, constituído pelo habitual crepe, chá, bolos, pão com doce, mel, ou queijo. A sala de refeições da Riad verte para um espaço exterior onde se aloja a piscina, debruçada sobre o oeud que abastece o oásis sobranceiro. Os primeiros raios de sol inundavam a essa hora as tamareiras, alterando as cores do cenário entre o verde, a água e o ocre da terra. Os pássaros chilreavam – pintassilgos e pardais - e alguns deles vieram-nos à mesa. Mas o tempo voa e depressa chegou a altura de partir. Despedimo-nos de Ottman e voltámos à estrada. Volvidos dezassete quilómetros detivemo-nos em Alougum, onde deixámos o carro junto ao cemitério antigo, na parte norte da aldeia. Penetrámos no interior da parte antiga por uma porta a poente. A aldeia possui ainda uma forte presença da taipa e ao percorrermos as ruas descobrimos uma kasbah com cinco pisos que nos despertou uma grande curiosidade. Após tentarmos entrar no seu interior, Lahcem, um dos proprietários, neto do construtor da kasbah, um homem importante na região, apareceu-nos. A comunicação não foi fácil, porque ele apenas fala Amazergh e árabe. Felizmente, Lahcem chamou o filho Ayoub, um jovem de vinte anos, com o qual foi fácil comunicar quer em francês, quer em inglês. Ayoub prontificou-se a mostrar-nos a kasbah da família durante praticamente toda a manhã, com um misto de paciência e orgulho no edifício construído pelo bisavô, que foi o sheik da região. A kasbah data de finais do séc. XIX e pela dimensão percebe-se que o bisavô de Ayoub terá sido um importante dignitário. O avô de Ayoub, pai de Lahcem, também foi sheik e continuou a utilização do edifício, mas após a sua morte, em meados do séc XX este entrou em declínio pela perda de importância da aldeia. Hoje encontra-se bastante degradado, mas Ayoub tem esperanças de o conseguir recuperar um dia para o devolver à sua glória. Para tanto, desenvolveu contatos com o governo de Marrocos e aguarda resposta em janeiro, embora reconheça que não será fácil, por se tratar de uma construção em taipa, madeira e pedra, já em adiantado estado de degradação, tendo uma das suas quatro torres de vigia já desmoronada. Ao lado da kasbah existe ainda a casa original onde viveu inicialmente o bisavô de Ayoub e ao lado existe uma Riad (casa com pátio) onde eram recebidos os convidados mais importantes. Na kasbah viviam as quatro mulheres do bisavô (e depois a do avô) e os membros das suas guardas pessoais, servos e escravos. Lahcem e Ayoub convidaram-nos para almoçar e apresentaram-nos outros homens, membros  da família que igualmente nos franquearam a porta de uma de suas casas para o Miguel poder levantar a respetiva planta. Perto das quatro da tarde despedimo-nos, com promessa de mantermos o contato e de um possível regresso porque alguns coisas ficaram por ver. Antes da partida, deixei como lembrança a Ayoub os binóculos que me acompanhavam há cerca de trinta anos, sei que ficam em boas mãos. Oxalá o ajudem a encontrar a luz ao fundo do túnel no projeto que lhe pode custar uma vida..
Alogum possui diversas curiosidades que importa conhecer e pelas quais vale a pena regressar: uma judiaria, um cemitério judaico, casas com pátio, um pequeno templo cristão, souks e uma antiga mesquita que se julga ter mais de mil anos.
Após sairmos de Algoum, passámos em seguida por outras povoações, sendo que o Miguel tirou algumas fotos na povoação de Amazzer. Eu optei por ficar no carro, porque a ideia era não nos demorarmos, uma vez que ainda queríamos passar por Ait Ben Haddou, uma antiga ksar (cidade fortificada por onde passavam as caravanas antigamente a caminho do sul). Quando apareceu, o Miguel trazia consigo Mohammed, um ancião da aldeia que insistiu para visitarmos a sua casa. Com pena, tivemos de delicadamente recusar, porque se fazia tarde e o caminho era ainda longo.
Durante o caminho, a paisagem mudou vertiginosamente, pois abandonámos a planura do Anti Atlas para penetrar no Alto Atlas. O deserto cedeu lugar à montanha e aos poucos foram aparecendo pastagens e mais variedade de árvores, ao passo que as tamareiras foram escasseando, mas sobretudo o solo passou a apresentar um relevo mais imponente, com montanhas bastante elevadas.
Em bom ritmo chegámos à ksar Ait Ben Haddou (a cidade fortificada dos descendentes de Ben Haddou)já ao por do sol, mas ainda nos foi possível deambular por breves instantes pelas suas ruas com a luz filtrada do fim de dia. Para isso tivemos de cruzar a pé o oued que separa a parte nova da parte antiga da aldeia, sendo esse cruzamento feito sobre umas pedras dispostas dentro de sacos de serapilheira colocadas no curso de água. A ksar é património da Unesco e encontra-se em recuperação há vários anos a esta parte, mas muito está ainda por fazer e com a taipa há sempre trabalho de manutenção em curso.   
Por fim, já noite, empreendemos o caminho que nos levou à Kasbah N’Oufla, já no Alto Atlas, perto de Telouet, onde Lahoussine, o proprietário e a sua família, nos aguardavam para uma estadia de duas noites, com uma deliciosa refeição constituída por frango, limão, canela e aletria, um prato delicioso conhecido como Seffa, habitualmente servido em dias festivos, por altura do Ramadão. Pelas dez da noite recolhemos ao quarto.

Kasbah Ait Ben Haddou
Kasbah Ait Ben Haddou


Sobremesa com romã e bolo, Kasbah N' Ouffla


Kasbah da família de Ayoub, Allogoum

Amanhecer no oásis de Foum Zguid

Pormenor do teto de uma dar, Allgoum

Kasbah Ait Ben Haddou

Seffa, Kasbah N'Ouffla

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