Dia 2: Tiznit - Icht



O dia começou cedo, com pequeno-almoço às sete da manhã no hotel. Uma mesa bem composta com iguarias para restabelecer as forças. A seguir ao pequeno-almoço, pelas oito horas tomámos a estrada para Icht, que é a mesma para Tata. O início da estrada apresentava algum relevo porque estava em causa atravessar o Anti Atlas, após o que nos acedemos a um vale seco na região de Bouijakarne, com bastante pedra, apenas entrecortada a espaços por pequenos bosques de argânias. A estrada é estreita, mas não muito movimentada, embora esteja permanentemente em obras porque atravessa leitos de oueds que, durante as raras tempestades, se tornam torrenciais e as enxurradas levam a estrada.

Avistámos os primeiros oásis pelo caminho, antes do primeiro desvio que fizémos em direção a Amtoudi. O objetivo era visitar dois grainiers que são na verdade celeiros coletivos  fortificados, construídos no topo de uma colina sobranceira à aldeia, supõe-se, no séc. XII para guarda de cereais como forma de proteção contra tribos invasoras. Representam, por isso, um esforço sobre-humano de construção e apego à vida, mas a pacificação do território votou-os ao abandono.

Há cerca de dois anos foi empreendido um esforço de recuperação que os devolveu ao seu esplendor de outros tempos. O maior dos dois é o celeiro Id Aissa e conhecemos o seu guardião, Mohamed, um homem de 62 anos que nos acompanhou na subida a pé de quarenta minutos desde a aldeia, sem vacilar. Neste celeiro foi possível ver o projeto de recuperação, os locais de guarda dos cereais, três cisternas ainda funcionais e antigos nichos para colocação de colmeias, importantes para a economia local. No interior alberga-se ainda um pequeno museu com objetos antigos utilizados no dia a dia.

Após a visita, continuámos o percurso a pé atravessandos vários montes e ribeiras com piso de rocha solta e irregular, com uma temperatura de cerca de vinte e cinco graus, para visita do segundo celeiro, o de N’Guellouy, mais pequeno que o anterior, mas infelizmente estava fechado e não conseguimos contatar o guardião. Este celeiro encontra-se instalado no alto de um penedo de onde a vista alcança uma beleza incrível sobre uma garganta atravessada por um oeud onde se aloja um espantoso oásis que alberga quatro pequenas aldeias vizinhas, as quais formam o núcleo de Amtoudi.

Infelizmente as casas em Amtoudi estão já bastante descaracterizadas, com o progressivo abandono da taipa em detrimento da construção com blocos de cimento. O guia, Abdullah, pai de uma menina de oito anos e de um rapaz de onze, que vive com os pais e a mulher, sugeriu-nos almoço no restaurante local, onde pudemos escolher livremente um menú variado, entre Tajine au Poulet ou Tajine au Poulet. Como ambas nos pareceram bem, optámos por uma de cada, para concluirmos que a melhor era a Tajine au Poulet.

Repostas as forças, voltámos à estrada, sendo que pelo caminho avistámos alguns oásis ao longe, mas nenhum nos pareceu valer a pena o desvio. Como chegámos a Icht antes da hora prevista, optámos por ainda ir visitar Fam el-Hisn, que é a aldeia principal, a cerca de trinta quilómetros da fronteira com a Argélia que no entanto não é possível visitar por se encontrar fechada, atento o conflito diplomático entre Marrocos e o seu vizinho por causa do apoio da Argélia à causa do Sahara Ocidental.

O Miguel havia depositado grandes esperanças no estado de conservação de Fam el-Hisn, mas na verdade as antigas casas em taipa vão sucumbindo com o avanço do tempo e, ou se tornaram raras por serem substituídas pelo tijolo de cimento, ou foram abandonadas pelos seus proprietários e parte das suas estruturas acaba por colapsar. Fam el-Hisn encontra-se perto de um largo oeud que divide a aldeia entre uma parte mais antiga, a poente do oeud, e outra mais recente, a nascente, tendo cada uma o seu próprio cemitério. No leito de pedra do oeud tirámos umas fotografias junto a um canal de irrigação agrícola. Pudémos ainda constatar o esforço educacional empreendido pelo governo marroquino, pois na zona existem pelo menos duas escolas recentes e viam-se muitas crianças e adolescentes na rua, a pé e de bicicleta.

As gentes da região apresentam fisionomia de tez mais escura que no norte e no modo de vestir já se nota alguma inspiração sahariana, sendo que alguns parecem ser de ascendência tuaregue. No entanto, como é uma zona remota, não estarão habituados a turistas, pelo que se resguardam no contato e evitam a fotografia. As pessoas mais afoitas que encontrámos foram algumas crianças que nos abordaram e pediram canetas. Entregámos as poucas que tínhamos e continuámos a visita.

Após percorrermos Fam el-Hisn regressámos a Icht, cerca das sete da tarde, com o sol a pôr-se à chegada ao resort Borj Biramane, propriedade de Paul e Michel, dois franceses que ali vivem às portas do deserto. O resort  é também um parque  de campismo no qual é possível estacionar caravanas, tendo um pequeno restaurante de apoio onde se servem bebidas alcoólicas. Obviamente, não podíamos terminar o dia sem a segunda tajine, antes de apontarmos ao quarto, sob um dos mais brilhantes céus de estrelas com que a vida me brindou.
Id Aissa, o corão, gravado em amazegh

Mohammed, guardião de Id Aissa

Amanhecer em Tiznit

Os primeiros oásis

Celeiro de Id Aissa

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Oásis de Amtoudi

Celeiro de Id Aissa
Marco, na subida para Id Aissa
Fachada do Hotel Idou Tiznit
Celeiro de N’Guellouy
Gárgula improvisada numa casa em Fam el-Hisn
Resort Borj Biramane
























































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